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GENOCÍDIO INDÍGENAS

 

     8 anos e 12 quilos, a criança com malária e desnutrição que simboliza o descaso com os Yanomami no Brasil.

     Etnia enfrenta crises sanitária e ambiental com escalada de violência por garimpos ilegais. Povo denuncia novo ataque neste domingo. Imagem expõe o grave e crônico problema da assistência à saúde em várias aldeias.

     Criança Yanomami com desnutrição e malária, na aldeia Maimasi.

     Criança Yanomami com desnutrição e malária, na aldeia Maimasi.

     Uma rede escura acomoda o corpo miúdo de uma criança Yanomami tão magra que é possível ver sua pele moldar as costelas. A fotografia de uma menina de oito anos que pesa apenas 12,5 quilos (o peso mínimo normal para a idade seria de 20 quilos), feita na aldeia Maimasi em Roraima, expõe um problema crônico de desassistência à saúde que os povos indígenas enfrentam no coração da Amazônia ― e que vem crescendo ano após ano. A criança estava acometida por malária, pneumonia, verminose e desnutrição, em uma região sem visitas regulares de equipes sanitárias e que fica a 11 horas a pé do polo de saúde mais próximo. Ela teve sua imagem capturada dias antes de ser transferida de avião a um hospital da capital Boa Vista no dia 23 de abril, onde já se recuperou da malária, mas segue em tratamento para os outros problemas. Virou símbolo do histórico descaso do Brasil com o povo Yanomami, que luta para sobreviver em meio a uma junção de graves crises: a escalada de violência por garimpeiros ilegais, os impactos ambientais que levam fome a algumas regiões e a fragilidade do acesso à atenção sanitária.

     MAIS INFORMAÇÕES

     Tainaky Tenetehar, da Terra Indígena Arariboia.

     Se a nossa terra, a nossa floresta sumir, o que vai ser do meu povo?

     Os Yanomami contra o coronavírus (e contra a diarreia, as lombrigas e os garimpeiros...)

     Dário Kopenawa, liderança do povo Yanomami.

     Meus antepassados morreram pelo mesmo que eu tô enfrentando: o garimpo ilegal e a epidemia

     “Na cultura Yanomami a gente não pode demonstrar imagem de criança, frágil, doente. Mas é muito importante [fazer isso] pela crise que estamos vivendo”, explica o líder indígena Dario Kopenawa, ao autorizar a publicação da fotografia nesta reportagem. Para esta etnia, a imagem da pessoa é parte importante dela e disseminá-la em uma situação de enfermidade pode enfraquecê-la ainda mais. Até quando se morre, é preciso queimar todas as lembranças de quem partiu para preservar seu espírito no mundo dos mortos. Mas a comunidade decidiu divulgar a fotografia enquanto a criança tenta se recuperar para denunciar aos napëpë ―como chamam os não indígenas― seu sofrimento diante da grave crise de saúde que os ameaça.

     Esta foto é uma resposta da violação de direitos dos povos indígenas”, resume Kopenawa. Enquanto a malária e a covid-19 avançam sobre as aldeias, lideranças narram que equipes de saúde foram reduzidas com profissionais afastados por covid-19 e outras doenças, postos de saúde foram fechados temporariamente e falta helicóptero para transporte de pacientes em áreas de difícil acesso. “A gente sofre há muito tempo sem estrutura boa, sem todos os profissionais completos pra dar assistência. Com a pandemia, piorou”, destaca Konepawa. O problema afeta especialmente as comunidades mais isoladas, que dependem de visitas esporádicas das equipes. “Tem locais que estão ainda sem vacinação contra a covid-19 porque não têm profissionais. São comunidades que ficam longe dos postos, não têm como chegar”, acrescenta Júnior Yanomami, membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), um órgão responsável pelo controle social das ações governamentais. No Brasil, os grupos indígenas são prioritários na fila de vacinação.

          A saúde Yanomami está abandonada. Falta tudo”, continua o líder indígena. Segundo ele, a aldeia Maimasi, que vive um surto de malária e onde várias crianças padecem com desnutrição e verminoses, não recebia visita de equipes de saúde havia seis meses, quando profissionais atenderam a criança da fotografia (divulgada por um missionário católico e publicada pela Folha de S. Paulo), no final de abril. A equipe não dispunha de medicamentos suficientes para todos os que precisavam, conta o indígena. A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), responsável pela atenção aos povos originários, dá uma versão diferente: diz que o atendimento ocorreu dia 19 de março, “mas a família não autorizou a remoção para uma unidade de saúde”.   Também garante ter estoque suficiente de medicamentos e ter contratado profissionais de saúde, mas não esclarece qual é a frequência das visitas à aldeia. A Sesai tampouco informa ao EL PAÍS sobre a incidência de malária, desnutrição e mortalidade infantil para dar a dimensão do crescimento das doenças na região.

     Esses problemas de saúde não são generalizados em todo o território Yanomami ―tão vasto quanto a área de um país como Portugal―, mas estão presentes em várias comunidades. Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz em duas áreas do território ―Auaris e Maturaká― e divulgado no ano passado dá pistas sobre o tamanho do problema: 80% das crianças de até 5 anos apresentavam desnutrição crônica e 50% desnutrição aguda nestes locais. A situação está relacionada desde à escassez de água potável até a falta de acompanhamento nutricional e de pré-natal na gestação. Passa ainda pelos quadros de verminoses, malária e diarreia frequentes nas comunidades, sem ações preventivas de saúde fortes. “Desde 2019, relato as necessidades e pedimos socorro ao Governo”, diz Júnior Yanomami. “Agora está pior. Aumentou muito a desnutrição. Onde tem garimpo forte tem o problema da fome. E na pandemia aumentaram as invasões. Como eu vou explicar a fome dos Yanomami? Eles [os garimpeiros] sujam os rios, destroem a floresta, acabam a caça. Nós nos alimentamos da natureza”, explica o indígena.

     Os moradores da Maimasi são descendentes de um dos grupos mais afetados pela abertura da estrada Perimetral Norte (BR-210) na década de 1970, durante a ditadura militar. Naquela época, parte significativa do grupo morreu diante de surtos de sarampo e outras doenças levadas pelos trabalhadores das obras. Há anos, eles cobram um posto de saúde, mas por enquanto seguem dependendo de visitas esporádicas da equipe de saúde à comunidade. A situação que já era difícil ficou pior especialmente a partir do ano passado. As visitas diminuíram enquanto cresceram as atividades de garimpeiros ilegais, aumentando a chance de doenças transmissíveis e a violência. E os casos de malária, enfrentados pelos indígenas há décadas e considerados “endêmicos” pela Sesai, seguem crescendo. Segundo Júnior Yanomami, só neste ano já foram identificados cerca de 10.000 casos, o que corresponde a pouco mais de um terço de toda a população yanomami, de cerca de 29.000 pessoas. “A criança na foto provavelmente expressa esse somatório de tragédias”, afirma uma nota da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana.

     Nosso território está vulnerável com tantos problemas ao mesmo tempo”.

     Os vários problemas sanitários, ambientais e sociais enfrentados não estão dissociados. O desmatamento na Amazônia no último mês de abril foi o maior em seis anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O desmatamento tem crescido ano após ano, e o desequilíbrio ambiental interfere na alimentação dos povos da floresta, que se alimentam do que colhem, pescam e caçam nas comunidades mais isoladas. Em várias áreas, a presença de garimpeiros e madeireiros ilegais leva ainda à contaminação de rios com mercúrio, contribuindo para desnutrição, desidratação e diarreia.  Com os recursos diminuindo na floresta e a fome à espreita, alguns indígenas acabam trabalhando com não indígenas e aderindo a uma alimentação industrializada e menos nutritiva. “Não dá para generalizar que as crianças estão morrendo desnutridas, com fome. Tem esse problema onde há presença dos garimpeiros. Onde não tem garimpo as crianças estão saudáveis, comendo bem e cuidando de suas atividades. O que falta é assistência de saúde”, defende Kopenawa. “A vida do povo Yanomami está em risco. Nosso território está vulnerável com tantos problemas ao mesmo tempo.”

     Crianças do povo Sanöma, que vive na Terra Indígena Yanomami, na fronteira do Brasil com a Venezuela.

     A escalada da violência com garimpos ilegais.

     Às crises sanitária e ambiental, soma-se ainda uma escalada de violência em algumas regiões. É o caso da comunidade indígena Palimiu, em Roraima. Há uma semana, a aldeia enfrenta ataques de garimpeiros, com tiros, bombas e gás lacrimogêneo contra os indígenas.  Na última terça, garimpeiros ilegais trocaram tiros com a Polícia Federal durante uma visita para averiguar as denúncias de ataques à aldeia. “Eu nunca tinha visto tantos tiros. Só em filme. Eles [garimpeiros] eram muitos e tinham armamento pesado”, conta Júnior Yanomami, que estava na comunidade naquele momento. No ano passado, os indígenas criaram uma barreira sanitária para evitar a passagem de garimpeiros e tentar frear a disseminação do coronavírus. Mas o rio Uraricoera, onde fica a barreira, é uma das principais rotas para a atividade. No dia 24 de abril, os Yanomami impediram a passagem de um grupo. Tentaram negociar para que não voltassem. A resposta, segundo Júnior Yanomami, veio meio hora depois, com tiros em direção à comunidade.     Os indígenas revidaram com flechas e tiros de espingarda.

     Os vários conflitos na última semana, segundo relatam os indígenas, deixaram três garimpeiros e um Yanomami feridos. Duas crianças teriam morrido afogadas enquanto fugiam dos tiros, segundo lideranças.  O último ataque, dizem, foi na noite de domingo. “É uma coisa muita séria. Todos lá estão com muito medo. Eu também fiquei”, emenda Júnior Yanomami. “Tem Yanomami correndo risco. Tenho medo de acontecer um massacre a qualquer momento. O Governo Federal tem que se mexer”, clama.

     Entidades indigenistas veem o posicionamento do presidente Bolsonaro, que já fez declarações contra a demarcação da terra indígena Yanomami e costuma defender a regularização do garimpo nos territórios, como um estímulo aos conflitos. Na última quarta-feira, o Exército até deslocou homens para a comunidade, mas os retirou horas depois. A 1ª Brigada em Boa Vista não respondeu à reportagem se reenviará os militares e o que motivou a retirada deles. A Polícia Federal, por sua vez, deve retornar para investigar o caso. Enquanto isso, os indígenas seguem em estado de alerta e medo, contam lideranças. Até que a situação se modifique, devem ficar também sem os serviços de saúde, já que a Sesai retirou os profissionais diante da gravidade da situação. “A unidade de atendimento será reaberta tão logo seja possível atuar em segurança”, afirma a secretaria, acrescentando que atendimentos de urgência serão realizados pontualmente no distrito sanitário indígena que fica fora do território. Já a Fundação Nacional do Índio não retornou os contatos da reportagem. “O clima é de medo. Muito medo. Agora só eles estão lá. Não tem PF, Exército nem Saúde. Estão sozinhos para defender a sua comunidade”, finaliza Júnior Yanomami.

 

     Comentário:

     Os índios brasileiros estão sendo massacrados pela fome, epidemias, contaminações, invasões, agressões, assassinatos, etc. Tudo isso, porque o governo de Jair Bolsonaro permite aos invasores das terras indígenas esse massacre que vai se tornar um genocídio étnico indígena.

     O maior facínora é aquele que extermina as etnias de maneira indireta através de terceiros ou priva esses povos de se alimentarem corretamente, é o caso dos garimpos, desmatamentos e incêndios criminosos, que o governo vem apoiando as invasões de grileiros, garimpeiros, devastadores de árvores através dos motosserras, tratores e correntes, e também, áreas para agropecuária em territórios do Amazonas e do Pantanal Mato Grosso, foram eles que privaram os índios de se alimentarem da caça e da pesca por ter envenenado as águas com metais pesados (mercúrio) e afastaram e mataram pelo desmatamento e incêndios os animais silvestres.

     Agora os índios estão a Deus dará, vivendo como párias, mendigos, favelados, aculturados. É muito triste ver essas nações indígenas em estado deplorável pela ambição e pelo poder do homem branco. Antigamente, esses índios eram fortes, sadios, viviam felizes porque tinha de tudo para viver e sobreviver através da natureza que lhes davam em abundância. Onde o homem branco chega destrói tudo, é um cupim querendo ser humanos mas na verdade não passam de monstros exterminadores da humanidade, do meio ambiente, e de si mesmo.

     Pobres povos indígenas que estão abandonados a própria sorte e o governo do faz de conta, faz que está protegendo mas está exterminando lentamente com a etnia indígena. Só Deus pode salvar os índios, e as florestas: Amazônica e a Atlântica e também o Pantanal; que estão sendo devastadas sem dó nem piedade.

     Cadê as autoridades internacionais que não ajudam e não criminalizam as autoridades pelo extermínio lento dos povos indígenas, estão todos de braços cruzados em cima do muro, mas vai chegar a vez da humanidade pagar pelas omissões e conivência com esses crimes de holocausto contra nações aborígenes.

     Com o avanço da destruição da floresta Amazônica em 2030 não haverá mais floresta e sim savanas amazonenses.

     A COP-26 e todos os seus membros são responsáveis pela destruição da floresta Amazônica e do Pantanal do Mato Grosso são todos coniventes com a política de extermínio da natureza de Jair Bolsonaro. Se esses membros da COP-26 quisessem acabar com a destruição da natureza aqui no Brasil, bastava fazer um boicote em todas as exportações (commodities) do Brasil, forçando o governo a reflorestar toda área que foi destruída pelo fogo e desmatamentos; e de imediato, acabar com os garimpos legais e ilegais, com as queimadas e cortes de árvores. Só depois de estabilizar o meio ambiente é que os países da COP-26 começariam a importar os produtos boicotados do Brasil. Por esta negligência das autoridades mundiais é que, no futuro próximo vão pagar caro pela displicência em suas ações neutras.

 

Ernani Serra

 

https://oglobo.globo.com/mundo/em-meio-cop26-desmatamento-na-amazonia-aumenta-5-bate-recorde-para-outubro-25274503

 

https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/01/bolsonaro-areas-indigenas-invasao-2020/

https://www.institutojurumi.org.br/2021/02/incendios-florestais-no-brasil.html

 

https://terrasindigenas.org.br/noticia/31836

 

Pensamento: O homem branco vive da miséria das nações indígenas.

 

Ernani Serra

 



DENÚNCIA DO ÍNDIO DÁRIO


     "São 20 mil garimpeiros explorando a nossa casa", afirma liderança indígena. Liderança yanomami denuncia o garimpo ilegal de ouro, ameaças e danos ambientais no território em Roraima: governo Bolsonaro pretende legalizar a mineração em terras indígenas. Dário Kopenawa é vice-presidente da associação Hutukara Yanomami.
     “Sempre denunciamos, mas garimpeiros continuam lá”, diz Dário Kopenawa, filho do líder yanomami David Kopenawa nesta entrevista à Agência Pública. “Ele [Bolsonaro] não está prejudicando só os Yanomami, ele está arrumando problema pro Estado brasileiro”, critica o jovem vice-presidente da associação Hutukara Yanomami, em Roraima.
     Atualmente, mais de 15 mil garimpeiros ilegais exploram ouro na maior terra indígena brasileira. O ouro se tornou em 2019 o segundo maior produto de exportação de Roraima sem que o Estado tenha uma única mina operando legalmente, segundo reportagem da BBC Brasil. Dário pede a retirada imediata dos garimpeiros ilegais: “mas como o governo Bolsonaro é a favor [da exploração] isso dificulta muito. E só o governo que pode fazer essa desintrusão”, avalia.
     Não é a primeira vez que há invasão garimpeira no território. Em 1986, 40 mil garimpeiros estiveram na TI. Reportagem do jornal O Globo revelou como essa nova corrida pelo ouro na região deixa um rastro de “tensões, violência, conflitos e destruição ambiental” — atualmente, são cerca de de 23 mil yanomamis vivendo em Roraima e no Amazonas. “Uma coisa que quero deixar bem clara é que as lideranças que estão denunciando estão correndo risco. Eles dizem: “se você continuar denunciando a gente vai pegar você, vai bater em você, vai matar você”, é assim que os garimpeiros estão falando para alguns amigos deles para deixar recado para quem está denunciando o garimpo”, revela.
     Dário conta que entregou ao Ministério Público Federal de Boa Vista um Plano de Gestão Territorial Ambiental (GTA). “São protocolos de consulta. Quando algum projeto ou empreendimento estiver querendo fazer mineração em terra indígena, por exemplo, no protocolo consta que antes tem que consultar os Yanomami. Quando tiver um interessado [em explorar a terra indígena] ele tem que enviar um projeto para Funai de Brasília, a Funai de Brasília vai consultar as regionais que vai consultar as organizações [indígenas], que fala com as lideranças locais que conversa com a comunidade”, explica.   “Esse tem que ser o procedimento do protocolo que a gente fez. Esses protocolos servem para reforçar a necessidade prática da proteção ambiental do nosso território e monitorar o desmatamento, o impacto ambiental, e destruição, enfim, mostra como cuidamos do nosso território”.
     Atualmente, o governo Bolsonaro prepara um projeto para legalizar a mineração em terra indígena, o que pode afetar um terço das TIs no país. Prevista na Constituição de 1988, a atividade nestes territórios nunca foi regulamentada e é alvo de discussão no Congresso.
     Dário afirma ainda que uma comissão das organizações e lideranças também foi até Brasília entregar o Plano de Gestão Territorial Ambiental. “Entregamos para nossa grande guerreira Joênia [Wapichana], Deputada Federal e depois entregamos no Ministério da Defesa e na Secretaria do Governo: Ibama, ICMBio, Ministério da Educação e a Funai. Também entregamos em Manaus, no Ministério Público Federal do Amazonas e na Comando Militar da Amazônia. Está todo mundo sabendo como se deve agir, quando se fala de garimpo ilegal em terra indígena Yanomami”.
     Seu pai, David Kopenawa, está denunciando o garimpo ilegal há muitos anos e você continua fazendo essas denúncias. Como você se sente?
     Quando eu era criança, meu pai já lutava muito. Na década de 1980, quando grande número de garimpeiros entrou na terra Yanomami, tinha 40 mil garimpeiros. Ele lutou bastante. Tinha muita coisa errada e denunciou muita gente. Nessa época, nosso território não era demarcado. Meu pai está com 40 anos de luta. Denunciando o garimpo. Falando das consequências, da vulnerabilidade do território Yanomami.
     Mas agora o governo brasileiro tem que cumprir o papel de retirar os garimpeiros.   Quando eles demarcaram a terra Yanomami em 1992, o governo federal tirou todos os garimpeiros da nossa terra. Agora a gente tem que ter uma ação pesada para retirar os garimpeiros imediatamente. Mas como o governo Bolsonaro é a favor [da exploração] isso dificulta muito. E só o governo que pode fazer essa desintrusão. Vai precisar de mais de 300 homens para tirar esses garimpeiros da terra Yanomami. Tem que ser uma operação muito grande. Tirar eles de lá é dever do Estado, em respeito aos direitos dos povos indígenas, está na Constituição de 1988, artigo 231, isso está claro e o presidente tem que cumprir o seu dever, que em minha opinião está descumprindo, porque 20 mil garimpeiros estão nas terras Yanomamis e não tem como esconder 20 mil pessoas.
     Você têm formalizado novas denúncias sobre a exploração de ouro no território?
Denúncias a gente sempre faz. Tem uma pilha, uma tonelada de denúncias. E a Funai não resolve isso, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal ou Exército. No mês passado, a gente fez denúncias graves nos órgãos públicos. Fomos na Funai, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa e Procuradoria Geral da República. Sempre denunciamos, mas garimpeiros continuam lá.
     Qual o teor das denúncias?
     Mais e mais denúncias de garimpo ilegal na terra Yanomami.
     Como está a exploração no território?
     Hoje tem uns 20 mil garimpeiros na terra Yanomami trabalhando lá. São muitos homens [garimpeiros] explorando a nossa casa. E isso não é a mineração, é o garimpo ilegal na terra Yanomami. Mineração não chegou ainda, mas já está prejudicando o nosso território. Onde está mais grave é na região do Rio Uraricoera, ali tem comunidades correndo risco.
     Como vocês tem certeza que são 20 mil garimpeiros? Como chegaram nesse número?
     A gente recebe informações através das denúncias das comunidades. Cada comunidade faz uma contagem “por cima”. A gente não chegou a ir lá [no garimpo] e contar garimpeiro por cabeça, não. Se a gente vai, a gente é morto. Também tem os dados da Polícia Federal e do Exército que chega nesse número. Desde 2011 vem aumentando. Mas 2019 está bastante. Estamos com 20 mil garimpeiros.
     Chegam ameaças até vocês?
     Onde tem a presença de garimpeiros, acontece muito. Eles ameaçam as mulheres, crianças e os adultos também. Eles têm arma de fogo. Tem ameaça, sim. Uma coisa que quero deixar bem clara é que as lideranças que estão denunciando estão correndo risco.   Eles dizem: “se você continuar denunciando a gente vai pegar você, vai bater em você, vai matar você”, é assim que os garimpeiros estão falando para alguns amigos deles para deixar recado para quem está denunciando o garimpo. Mas a gente tem que denunciar, porque o garimpo está dentro do nosso território, eles estão presentes dentro do território Yanomami. E a nossa terra está demarcada. Eles estão perto das comunidades. Tem alguns que estão a cinco quilômetros. O garimpo está ao redor das comunidades.
     Como são as estruturas do garimpo e o local onde os garimpeiros ficam?
     Eles têm os barracões que são as casas deles. Cada garimpo leva os seus equipamentos. Rede, alimentação, barco, maquinários, combustível, levam tudo. Quem está apoiando com equipamentos são os empresários, eles bancam tudo. Os motores e barcos são bancados por empresas.
     E como eles acessam a Terra Indígena?
     Eles têm três possibilidades: sobem de barco, fretam avião particular, ilegalmente, e helicóptero também, ilegalmente. Para poder chegar à localidade, eles têm pista clandestina. Tem radiofonia. Tem wi-fi, internet. Os garimpeiros estão equipados.
     Qual é a região mais problemática?
     Hoje, a parte de cima do Rio Uraricoera e também o Rio Mucajaí é a parte mais problemática. Os principais são esses. Eles estão subindo até os igarapés, onde os Yanomami estão morando. Lá eles têm pistas clandestinas. Eles mesmos fazem.
     Como é a vida das pessoas que vão até o garimpo e vivem lá para conseguir o ouro?
     Não é para eles viverem lá. Eles fazem atividade de garimpo ilegal, ficam cavando os rios com maquinário pesado. Colocam canos nos rios para puxar água. Cortam a terra, enchem os rios de poluição com mercúrio.    Tem uso de prostituição e alcoolismo.  Aliciamento dos Yanomami. Eles têm alimentação, rádio, televisão. Eles chegam na comunidade e prometem muito. Dão arroz, cachaça, comida, espingarda, cartucho. Falam para eles [indígenas] que são garimpeiros bons. A maioria dos Yanomami são contra, é a minoria que cai no aliciamento.
     Você sabe o que acontece com ouro que sai da terra Yanomami?
     O ouro extraído da nossa casa, eles levam para Boa Vista. Lá eles fazem uma espécie de lavagem e mandam para outros estados e depois para Europa. São vários empresários que compram ouro, mas a gente não conhece, não temos acesso. Há três ou quatros anos, aqui em Boa Vista a Polícia Federal investigou alguns empresários. Segundo ela, o caminho do ouro que sai da terra Yanomami vai para Boa Vista, depois para Manaus, Maranhão, e do Maranhão para São Paulo. O ouro Yanomami anda por esses caminhos.
     Uma das bandeiras do governo é liberar a mineração em terras indígenas. Essa postura do governo favorece o aumento de garimpeiros no território?
     Quando ele [Jair Bolsonaro] se candidatou ele disse logo que queria negociar com o governo americano a legalização de mineração nas terras indígenas. Ele já falou isso. Realmente, o interesse dele é explorar a mineração, não é garimpo. Garimpo é um pouco fraco e agora o interesse do governo Bolsonaro é onde tem os minérios. Mas também ele está criando muito problema pro Estado brasileiro. Ele não está respeitando as hierarquias. Ele não está prejudicando só os Yanomami, ele está arrumando problema pro Estado brasileiro.
     Uma característica do projeto de lei que visa permitir a exploração dos mineiros em terra indígena é a necessidade de prévia autorização por parte dos indígenas daquele território. Como os Yanomami enxergam isso?
     No contexto geral, os povos indígenas do Brasil são contra a mineração em terras indígenas. Porque a política indígena não é a favor da mineração. A minoria, alguns parentes, é envolvida com os políticos. São manipulados por políticos.
     A justiça determinou que a FUNAI abrisse as bases de proteção etnoambiental no território. Você tem acompanhado a reabertura?
     No planejamento de abertura, são três bases [no território]. A gente processou o Estado e conseguimos recursos para fazer a reativação das bases, onde os garimpeiros estão entrando. Temos que bloquear a entrada dos garimpeiros de barco. A Funai está se organizando para fazer a reinstalação.    Era pra ter feito no ano passado, mas não deu certo, porque — não sei se a FUNAI vai dizer bem isso, mas eu estou dizendo, nós conseguimos por meio da ação judicial as reativações das bases e gente permanente para ficar lá.
     Segundo a coordenadora regional da Funai de Roraima, eles estão subindo para reabrir as instalações. Essa é uma responsabilidade da FUNAI. Eles não passaram um prazo oficial, mas acho que em 90 dias vai reabrir. Eles estão montando a estrutura para ir pra até lá.
     Qual o seu papel na associação?
     Em 2004, os Yanomami começaram a atuação da [Associação] Hutukara e desde o início estou trabalhando com a associação.    Durante 15 anos venho lutando e denunciando garimpo no nosso território.   Também atuamos com saúde e educação do nosso povo. Hoje sou vice-presidente da associação Hutukara Yanomami e um porta-voz do povo.

Ernani Serra


Pensamento: Quem não luta pelo que é seu, perde o direito.

Ernani Serra


AS AUTORIDADES MUNDIAIS ESTÃO DORMINDO

 

     Garimpo leva violência sexual, aliciamento, crime organizado e doenças às terras Yanomami

     Maior reserva indígena do Brasil passa pelo pior momento de invasões dos últimos 30 anos, segundo relatório; 56% dos 27 mil habitantes da Terra Indígena Yanomami são afetados diretamente pelo garimpo.

     Em muitas comunidades, os garimpeiros estão aliciando meninas e jovens indígenas, oferecendo comida, bebida alcoólica e armas de fogo em troca de sexo e pequenos serviços.

     É cada vez mais comum o casamento de garimpeiros com meninas e adolescentes indígenas, algumas com apenas 10 anos de idade.

 

     Nos últimos três anos, o garimpo ilegal na reserva quase triplicou: a área total destruída pelo garimpo pulou de 1.200 hectares para 3.272 hectares.

     “Muitos garimpeiros estão aliciando jovens e mulheres Yanomami. Têm meninas de 11, 12, 13 anos sendo aliciadas para ficar na barraca com eles. Eles oferecem [em troca de sexo] alimentação, roupa, material de trabalho”.

     Comunidades dentro da Terra Indígena Yanomami situadas até 10 quilômetros de áreas invadidas pelo garimpo enfrentam violência sexual, estupro de menores, crime organizado, aliciamento de jovens indígenas para o garimpo, assassinatos e graves problemas de saúde, como malária e desnutrição infantil.

O alerta está em um levantamento publicado nesta segunda-feira (11), elaborado pela Hutukara Associação Yanomami, que estima que 273 comunidades Yanomami e 56% dos 27 mil habitantes da reserva são afetados diretamente pelo garimpo.

     “A Terra Indígena Yanomami vive o pior momento desde a sua demarcação, ocorrida em 1992”, diz o pesquisador responsável, que prefere não se identificar por causa de ameaças sofridas nos últimos meses.

     Apesar de o garimpo nas terras Yanomami acontecer há décadas, os pesquisadores afirmam que a atividade está mais violenta desde 2018, principalmente contra meninas e jovens indígenas, que têm sido aliciados em troca de comida, bebida alcoólica e armas de fogo.

     Apesar de as comunidades Yanomami mais impactadas serem, segundo os pesquisadores, Waikás, Homoxi, Kayanau e Xitei, todas situadas no lado roraimense da reserva, é nas regiões de Parima e Aracaçá que tem ocorrido os piores relatos de estupro e violência sexual.

     “No Parima, tem uma menina de onze anos que está casada com um garimpeiro. O pai dela morreu e ela estava sendo criada pela avó. O casamento aconteceu quando ela tinha dez anos”, denuncia o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Junior Hekura Yanomami.

     Não é um caso isolado. “Muitos garimpeiros estão casados com adolescentes indígenas”, diz Hekura. Segundo ele, existem de dez a doze “filhos de garimpeiros principalmente na região de Parima. E ainda tem mais meninas grávidas.”

     Escravidão por dívida e trabalho por comida.

     Segundo os pesquisadores, pessoas da região são atraídas para trabalhar nos garimpos em diversas funções, de mergulhador, operador de máquina a cozinheira e prostituta — inclusive por meio das redes sociais e aplicativos de mensagem.

     “A expectativa de ganhar cerca de 3 gramas de ouro por programa (o que equivale a mais de R$ 900) ou mesmo um salário de R$ 5 mil por mês como cozinheira atrai muitas mulheres que não sabem exatamente o que irão encontrar na floresta”, diz trecho do relatório.

     Uma vez que o próprio trabalhador interessado é responsável pelo custo da viagem até as regiões do garimpo — transporte que pode custar mais de R$ 10 mil —, a situação costuma resultar, segundo o relatório, a uma situação de escravidão por dívida.

     “Há relatos de cozinheiras que são obrigadas a se prostituir e garotas de programa que não conseguem sequer bancar a viagem de volta, devido aos gastos nas estruturas das corrutelas, como medicamentos para infecções, aluguel do quarto, alimentação e produtos de higiene”, diz outro trecho do documento.

     Grande parte das mulheres aliciadas é venezuelana, que atravessaram a fronteira em razão da crise humanitária no país vizinho.

     Aliciamento de indígenas.

     Por outro lado, também há casos em que os próprios Yanomami são aliciados pelo garimpo.

     “Os garimpeiros dizem: ‘Essa moça aqui. Essa tua filha que está aqui, é muito bonita!’. Os Yanomami respondem: ‘É minha filha!’. Quando falam assim, os garimpeiros apalpam as moças. Somente depois de apalpar é que dão um pouco de comida”, diz outro relato de indígena presente no relatório.

     “Eles falam assim para os Yanomami: “Se você tiver uma filha e a der para mim, eu vou fazer aterrizar uma grande quantidade de comida que você irá comer! Você se alimentará!”, relata outro.

     Ambos os relatos foram coletados na região de  Kayanau, na confluência dos rios Couto de Magalhães e Mucajaí. Outros relatos na área descrevem que é prática comum dos garimpeiros deixarem comida algumas vezes para mulheres da comunidade com o objetivo de ganhar a confiança delas. Assim que elas perdem o medo de se aproximar, os garimpeiros cometem o abuso sexual.

     “Recebemos relatos no final de 2020, na comunidade Aracaçá, de que 20 a 30 garimpeiros raptaram uma adolescente e a violentaram. Ela morreu. Ainda em 2020, outra adolescente foi sequestrada por garimpeiros em Surucuru e outra em Parima”, confirma Hekura Yanomami.

     “Tem meninas de 11, 12, 13 anos sendo aliciadas para ficar na barraca com eles. Eles oferecem [em troca de sexo] alimentação, roupa, material de trabalho. É questão de vulnerabilidade”, conta.

     A situação é extrema em Aracaçá, localizada na calha do Rio Uraricoera, comunidade já quase totalmente destruída pelo garimpo. Lá, os indígenas dependem da alimentação oferecida pelos garimpeiros em troca de serviços, como carregar combustível e realizar pequenos fretes de canoa.

     “De acordo com os Palimiu Theli, os garimpeiros introduziram bebidas e um ‘pó branco’ que deixaram os Sanöma viciados, alterados e violentos, resultando em muitos episódios de violência entre os de Aracaçá”, diz trecho do relatório em referência a dois grupos que fazem parte do povo Yanomami.

     Hekura narra outro caso recente ocorrido em uma comunidade na região Surucucu, em Parima.

     “Os garimpeiros chegaram lá em dezembro. Eles ofereceram 50 armas de fogo para poder trabalhar — melhor, destruir as terras da comunidade. Alguns jovens aceitaram. Outras comunidades estão revoltadas, responsabilizaram esses jovens por sujarem o rio. Tivemos que ir até lá agora em março para evitar conflitos entre os próprios Yanomami”, diz a liderança.

     Hekura acredita que a situação na região do Surucucu deverá piorar. “Agora, há relatos de garimpeiros oferecendo cem espingardas para continuarem destruindo a região”, conta.

     Mineração na área triplicou em três anos.

     O garimpo dentro da Terra Indígena Yanomami, localizada entre os estados de Roraima e Amazonas, vem ganhando força desde 2016. Nos últimos três anos, contudo, o relatório aponta que a atividade ilegal na reserva quase triplicou: em outubro de 2018, a área total destruída pelo garimpo representava pouco mais de 1.200 hectares; em dezembro de 2021 a destruição pulou para 3.272 hectares.

     O relatório mostra que o garimpo identificável por satélites localiza-se na porção roraimense da TI Yanomami, sendo que quase a metade da área degradada (45%) está concentrada em Waikás, região localizada no Rio Uraricoera. Kayanau, que está na confluência dos rios Couto Magalhães e Mucajaí, é a segunda zona com a maior concentração de cicatrizes, com pouco mais de 20% do total da área degradada, seguida por Homoxi, na fronteira com a Venezuela, com 12%.

     A região da comunidade Xitei, localizada nas nascentes do Rio Parima, em Alto Alegre, norte de Roraima, contudo, começa a preocupar pela explosão do garimpo no último ano, com crescimento do garimpo em 2021 de 1.000%.

     Dentre as macrorregiões, a calha do Rio Uraricoera é a mais impactada pelo garimpo na TI Yanomami atualmente, concentrando 45% das minas. Apresenta os maiores acampamentos e as mais complexas estruturas de apoio ao garimpo. Os garimpeiros acessam a região por meio de portos localizados fora da reserva, na vizinhança da Estação Ecológica de Maracá. Segundo os pesquisadores, a área está sem Base de Proteção Etnoambiental, o que facilita as invasões.

     “São portos localizados ou dentro de propriedades privadas, ou em áreas públicas sem destinação, que passam a ser controlados pelo garimpo”, diz o pesquisador responsável pelo relatório.

     “Em janeiro de 2022, apesar de ser tipicamente um mês de poucas chuvas em Roraima, o Uraricoera ainda estava cheio, e o tráfego de embarcações era intenso.    Durante o sobrevoo, foi possível registrar diversos botes repletos de recipientes de combustível, gás de cozinha, alimentação e equipamentos, percorrendo o rio em ambas direções”, relata trecho do documento.

     Além do transporte fluvial, há, também, a opção do frete aéreo. A viagem em uma das “pernas” custa cerca de R$ 11 mil, com direito a 500 kg de carga.

     Comentário: O Amazonas foi invadido pela corrida ao ouro sujo. As comunidades e as tribos indígenas estão em perigo de extinção por causa dessa atividade de garimpo (legal ou ilegal) o crime é o mesmo. Enquanto está havendo o genocídio lento das tribos indígenas e dos ribeirinhos, as autoridades mundiais estão cegos, mudos e surdos.

 

Ernani Serra

 

 

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Pensamento: Sem florestas, sem índios e sem humanidade.

 

Ernani Serra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               

 

                



INDÍGENAS NO XINGU PARAENSE DENUNCIAM INVASÃO DE TERRAS E QUEIMADAS 

 

     Territórios registram altos números de focos de calor em setembro, após área desmatada mais que o dobro em 2019. Com presença crescente, invasores apostam na regularização, inclusive loteando áreas dentro das reservas.

     Das cinco terras indígenas (TIs) que mais queimaram em setembro no Pará, quatro estão na bacia do rio Xingu, somando 83% dos focos de calor nesse tipo de área no estado. As TIs Kayapó (do povo mebêngôkre kayapó), Apyterewa (dos parakanã), Cachoeira Seca (dos arara) e Trincheira Bacajá (dos xikrin) têm também altos índices de desmatamento: em 2019, estavam nas primeiras posições, em toda a Amazônia.

     O grande número de queimadas deste ano acompanha o aumento exponencial do desmatamento em 2019, quando a área de floresta derrubada nas quatro terras indígenas mais que dobrou em relação ao ano anterior. O fogo completa, assim, o ciclo do desmatamento, iniciado com a retirada da floresta.

     Os dados de desmatamento e queimadas nesses territórios tradicionais e os relatos dos indígenas indicam uma relação entre o aumento da presença de invasores com um aumento da retirada de mata e focos de fogo, que ameaçam os povos indígenas do Xingu.

     Veja o mapa interativo do InfoAmazonia

     Mais de 60% dos focos de calor registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em terras indígenas localizadas no Pará, entre 1o e 30 de setembro, foram na TI Kayapó, que tem 3,2 milhões de hectares.

     Segundo Bhepnhoti Athydjare Kayapó, da Associação Floresta Protegida, as queimadas que invadem o território vêm principalmente de fazendas de gado do lado de fora. "O fogo entra e começa a se alastrar onde é mata fechada, não tem como ninguém apagar esse fogo. Agora tá começando a chover, aí tá diminuindo”, conta o Kayapó.

     Dentro da TI Kayapó, há ainda focos próximos de áreas de garimpo, não pela atividade mineradora em si, mas por serem locais que passam a ser desmatados, povoados pelos garimpeiros, que por vezes se utilizam do fogo no entorno de seus acampamentos.

     Apyterewa tem alta densidade de focos.

Nos últimos sete dias, entre 24 e 30 de setembro, é a TI Apyterewa, de 773 mil hectares, que ocupa o topo dos casos de fogo (46,8% do total em TIs do estado, no período). Os maiores causadores das queimadas são invasores, principalmente pecuaristas, que provocam uma série de danos ao território.

     Nos últimos sete dias, entre 24 e 30 de setembro, é a TI Apyterewa, de 773 mil hectares, que ocupa o topo dos casos de fogo (46,8% do total em TIs do estado, no período). Os maiores causadores das queimadas são invasores, principalmente pecuaristas, que provocam uma série de danos ao território.

     "Queimada, tem muito. Garimpo tem muito. Invasor novo tem demais também. Tão derrubando e queimando a floresta”, relata a liderança Temekwaryyma Parakanã, da aldeia Xaytata.

     As aldeias da Apyterewa ficam na beira do rio Xingu, no igarapé Bom Jardim e na área do Paredão. Os parakanã têm plena posse de apenas 20% da terra indígena. Na maior parte do território, estão invasores que instalam vilas, grilam terras, retiram madeira, abrem lavras ilegais de garimpo e áreas de pastagem para gado.

     Entre os invasores, há também colonos usados por fazendeiros e madeireiros para ampliar a apropriação não indígena do território. "As pessoas que tão lá, tão loteando a TI Apyterewa. Há muito tempo, a luta é pra que tenha a desintrusão da TI”, diz o indígena Xokarowara Parakanã.

     A desintrusão da Apyterewa, que significa a retirada de não indígenas, era uma das condicionantes para a instalação da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Além do afastamento dos invasores não ter sido cumprido, a ameaça ao território é reforçada por decisões como a tomada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que abriu possibilidade para uma ‘conciliação' entre a União e invasores que contestam a demarcação da terra.

     Enfrentando diversos conflitos, a TI Trincheira Bacajá, com 1,6 milhão de hectares, tem invasores em três áreas principais: uma no município de Pacajá, outra ao lado da TI Apyterewa e outra perto da TI Ituna-Itatá (terra indígena mais desmatada na Amazônia em 2019). As invasões na Trincheira Bacajá envolvem casos de grilagem e revenda de terra, além da presença de fazendas de gado e produções agrícolas, como de cacau.

     "Nossa aldeia é pertinho dos invasores. Já desmataram muito. E nós ficamos vendo fogo e fumaça perto de nós”, conta Bekoro Xikrin, da aldeia Kenkro.

     "São os invasores que tão tocando fogo na floresta. Porque, nós, indígenas, a gente controla. A nossa roça, a gente controla. Na hora de tocar fogo, a gente faz um aceiro, fica controlando pro fogo não passar pra floresta. A gente controla. Agora, eles, não. Tão tocando fogo aí adoidado. São os invasores que tão tocando fogo”, reitera Bebere Bemarai Xikrin, presidente da Associação Instituto Bepotire Xikrin.

     Segundo os xikrin, invasores já foram retirados da TI pelos próprios indígenas, pelos órgãos públicos em ocasiões anteriores, mas eles sempre voltam. Há uma base no território, instalada pela Norte Energia, também como condicionante de Belo Monte, mas sem a presença de agentes da lei, apenas com vigilantes contratados, que, no máximo, registram o que ocorre. Ultimamente, por conta da pandemia do novo coronavírus e de ameaças sofridas, os xikrin têm evitado ir a essas áreas invadidas. Eles reivindicam que o Estado atue para resolver a situação.

     Já na TI Cachoeira Seca, de 734 mil hectares, a presença de não indígenas é anterior à criação do território, estabelecida como compensação de Belo Monte. Lá, o fogo tem relação com a presença crescente da pecuária. "O principal problema da TI

Cachoeira Seca é a invasão para criação de gado de grandes pecuaristas. Grandes “madeireiros e políticos dos municípios também estão investindo em gado dentro da TI”, revela um agente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que já atuou na região. No território dos araras, foi instalada, recentemente, uma base fixa do órgão, na tentativa de inibir mais invasões e práticas criminosas.

     Agentes públicos encontraram cerca de um milhão de metros quadrados tomados por garimpeiros dentro da Terra Indígena Apyterewa.

     Os relatos ouvidos pelo InfoAmazonia indicam que, embora as pressões sobre as terras indígenas na porção paraense da bacia do Xingu sejam antigas, essa recorrência de invasões e prática de ilícitos no interior dos territórios protegidos dos povos tradicionais se intensificou durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.

     Aumento exponencial

     Os dados do Prodes/Inpe evidenciam o avanço desenfreado nos incrementos de desmatamento nas TIs Cachoeira Seca, Apyterewa, Trincheira Bacajá e Kayapó. Enquanto, em 2017, elas tiveram 32 km² de área desmatada, a extensão suprimida passou para 94 km², no ano seguinte, e 201 km², em 2019.

Em um ano, o fenômeno quadruplicou no território dos parakanã, passando de menos de 20 km² de novos desmatamentos, em 2018, para 85 km², em 2019. De toda a área já desmatada na TI, mais da metade (54,69%) foi aberta nos últimos cinco anos, corroborando os relatos de aumento exponencial da velocidade de invasão e atos predatórios no território.

As quatro TIs citadas estão entre as áreas protegidas que formam o Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental, garantindo conectividade e resiliência à floresta.

     "Esse é um corredor que tem terras indígenas e unidades de conservação. As terras indígenas são a maior parte desse território, e são as áreas mais e melhor conservadas. A gente afirma, com toda a clareza, que, nos lugares onde tem povos fazendo uso tradicional do território, tem floresta”, diz Biviany Rojas, coordenadora do Programa Xingu, do Instituto Socioambiental (ISA).

     "Isso mudou, de dois anos pra cá, porque há uma contraofensiva de ocupação de terras indígenas sem precedentes, e os povos indígenas estão sendo acuados. Na Apyterewa, os parakanã têm feito tentativas de criação de novas aldeias em áreas que eles já não conseguem fazer, porque estão totalmente ocupadas. Talvez a Trincheira Bacajá seja o caso mais claro desse ataque às terras indígenas, dessa coisa que começou em 2018 e, com o início do governo Bolsonaro, parece que teve uma permissão que, de fato, autorizou a entrada nos territórios”, comenta Rojas.

     Em todo o país, segundo o relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado esta semana, o número de casos registrados de invasões em terras indígenas saltou 134%, em 2019.

     Descontinuidade de ações

     Para tentar enfrentar a situação descontrolada, há um ano, a Polícia Federal realizava na Apyterewa ações da operação Azougue, que inutilizou máquinas e apreendeu mercúrio, ouro e munições no garimpo denominado Pista 2, de cerca de 1 milhão de metros quadrados. Ninguém foi preso durante a operação.     Em abril deste ano, uma operação do Ibama flagrou estruturas de acampamento e escavação, além de maquinário pesado vigiado por guarda armada.

     A falta de ações continuadas de fiscalização compromete o combate à entrada de invasores e atividades irregulares nas TIs. "Você faz o trabalho.   Quando vira as costas, você perde todo o trabalho que fez. Por isso que a presença constante é necessária. São quadrilhas que estão envolvidas por trás disso. Se você não consegue ficar, não consegue avançar na investigação”, explica o agente do Ibama.

     O Ministério Público Federal (MPF) informou, em nota, que vem emitindo recomendações, desde o ano passado, para que o Ibama realize ações de fiscalização e contenção do avanço do desmatamento em terras indígenas e unidades de conservação no Pará, além de fiscalizações em garimpos clandestinos nas terras indígenas Trincheira-Bacajá, Apyterewa, Ituna-Itatá e Cachoeira Seca.

     Segundo a nota, o MPF também atua contra o desmonte da política de fiscalização ambiental, "que identificamos como causa principal desse incremento significativo do desmatamento, das invasões e queimadas em terras indígenas”. Um dos exemplos dados é a série de ações que motivaram a suspensão da instrução normativa n° 9, da Fundação Nacional do Índio (Funai), que liberava o registro de grilagem em terras indígenas ainda não homologadas pelo governo federal.

 

https://www.google.com/search?q=TRATORES+BLINDADOS+EM+TERRAS+IND%C3%8DGENAS&rlz=1C1PRFC_enBR848BR848&oq=TRATORES+BLINDADOS+EM+TERRAS+IND%C3%8DGENAS&aqs=chrome..69i57.15634j0j15&sourceid=chrome&ie=UTF-8

 

 Relatório aponta que 99% do desmatamento no Brasil em 2019 foi ilegal.

Levantamento inédito mostra que áreas mais atingidas são a Amazônia e o Cerrado. Cerca de 11% dos alertas foram registrados em unidades de conservação e quase 6% em terras indígenas.  

 

https://www.dw.com/pt-br/pandemia-avan%C3%A7a-na-amaz%C3%B4nia-e-amea%C3%A7a-povos-ind%C3%ADgenas/a-53787765

 

Uma tragédia está em curso nas áreas mais remotas do Brasil: coronavírus se espalha rapidamente por aldeias e mata mais de 260 indígenas. Falta de plano do governo e presença de invasores aumentam drama.  

 

Mineração em terras indígenas pode causar prejuízo anual de US$ 5 bi, diz estudo.

Levantamento aponta que projeto de lei ameaça cerca de 860 mil km² de Floresta Amazônica, cuja devastação impactaria cadeias produtivas e regime de chuvas, com efeitos negativos para outras regiões e para o agronegócio.  

 

Relatório mostra disparada na violência contra indígenas

Estudo aponta intensificação e diversificação das formas de expropriação do território indígena em 2019, primeiro ano de Bolsonaro. Invasões e ataques mais que dobraram na comparação com 2018.  

Data 02.10.2020

     Autoria Guilherme Guerreiro Neto/InfoAmazonia

     Assuntos relacionados Especial AmazôniaAmazônia   

 

     Comentário:         

     Os índios brasileiros estão ameaçados de extinção pela COVID-19 e pela política de extermínio do ministro Ricardo Salles e do presidente Jair Messias Bolsonaro, atualmente muitas tribos que eram populosas e sadias agora são pequenos grupos de pessoas em situação de miséria social, desnutridas e doentes, os rios estão envenenados com mercúrio e as matas (flora e fauna) foram dizimadas pelo fogo. Os índios estão sem caça e sem pesca, estão a mercê de um governo que não se importa com as nações indígenas. Os índios estão vivendo de favores como mendigos. E a humanidade e as autoridades internacionais não estão nem aí para esse genocídio ambiental e social. Que a floresta Amazônica, o Pantanal, os Cerrados e os índios que se explodam nas ações governamentais. O governo achou pouco o que vem fazendo com as florestas e os índios, estão agora, querendo destruir os manguezais e as restingas. É o fim do Brasil falido, sem eira nem beira, tudo nas mãos dos estrangeiros.

 

https://www.dw.com/pt-br/justi%C3%A7a-suspende-decis%C3%A3o-de-salles-que-revogou-normas-ambientais/a-55098858?maca=pt-BR-Facebook-sharing&fbclid=IwAR1OlGu9oy4pDjsN-KntXU0WaZr1goeRusPig0RiqKjoEUAyx65OWdZS5Dg

 

Ernani Serra

 

Pensamento: O tempo dirá quem vão ser os verdadeiros réus.      

Ernani Serra

 

 

 

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