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GENOCÍDIO INDÍGENAS

 

     8 anos e 12 quilos, a criança com malária e desnutrição que simboliza o descaso com os Yanomami no Brasil.

     Etnia enfrenta crises sanitária e ambiental com escalada de violência por garimpos ilegais. Povo denuncia novo ataque neste domingo. Imagem expõe o grave e crônico problema da assistência à saúde em várias aldeias.

     Criança Yanomami com desnutrição e malária, na aldeia Maimasi.

     Criança Yanomami com desnutrição e malária, na aldeia Maimasi.

     Uma rede escura acomoda o corpo miúdo de uma criança Yanomami tão magra que é possível ver sua pele moldar as costelas. A fotografia de uma menina de oito anos que pesa apenas 12,5 quilos (o peso mínimo normal para a idade seria de 20 quilos), feita na aldeia Maimasi em Roraima, expõe um problema crônico de desassistência à saúde que os povos indígenas enfrentam no coração da Amazônia ― e que vem crescendo ano após ano. A criança estava acometida por malária, pneumonia, verminose e desnutrição, em uma região sem visitas regulares de equipes sanitárias e que fica a 11 horas a pé do polo de saúde mais próximo. Ela teve sua imagem capturada dias antes de ser transferida de avião a um hospital da capital Boa Vista no dia 23 de abril, onde já se recuperou da malária, mas segue em tratamento para os outros problemas. Virou símbolo do histórico descaso do Brasil com o povo Yanomami, que luta para sobreviver em meio a uma junção de graves crises: a escalada de violência por garimpeiros ilegais, os impactos ambientais que levam fome a algumas regiões e a fragilidade do acesso à atenção sanitária.

     MAIS INFORMAÇÕES

     Tainaky Tenetehar, da Terra Indígena Arariboia.

     Se a nossa terra, a nossa floresta sumir, o que vai ser do meu povo?

     Os Yanomami contra o coronavírus (e contra a diarreia, as lombrigas e os garimpeiros...)

     Dário Kopenawa, liderança do povo Yanomami.

     Meus antepassados morreram pelo mesmo que eu tô enfrentando: o garimpo ilegal e a epidemia

     “Na cultura Yanomami a gente não pode demonstrar imagem de criança, frágil, doente. Mas é muito importante [fazer isso] pela crise que estamos vivendo”, explica o líder indígena Dario Kopenawa, ao autorizar a publicação da fotografia nesta reportagem. Para esta etnia, a imagem da pessoa é parte importante dela e disseminá-la em uma situação de enfermidade pode enfraquecê-la ainda mais. Até quando se morre, é preciso queimar todas as lembranças de quem partiu para preservar seu espírito no mundo dos mortos. Mas a comunidade decidiu divulgar a fotografia enquanto a criança tenta se recuperar para denunciar aos napëpë ―como chamam os não indígenas― seu sofrimento diante da grave crise de saúde que os ameaça.

     Esta foto é uma resposta da violação de direitos dos povos indígenas”, resume Kopenawa. Enquanto a malária e a covid-19 avançam sobre as aldeias, lideranças narram que equipes de saúde foram reduzidas com profissionais afastados por covid-19 e outras doenças, postos de saúde foram fechados temporariamente e falta helicóptero para transporte de pacientes em áreas de difícil acesso. “A gente sofre há muito tempo sem estrutura boa, sem todos os profissionais completos pra dar assistência. Com a pandemia, piorou”, destaca Konepawa. O problema afeta especialmente as comunidades mais isoladas, que dependem de visitas esporádicas das equipes. “Tem locais que estão ainda sem vacinação contra a covid-19 porque não têm profissionais. São comunidades que ficam longe dos postos, não têm como chegar”, acrescenta Júnior Yanomami, membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), um órgão responsável pelo controle social das ações governamentais. No Brasil, os grupos indígenas são prioritários na fila de vacinação.

          A saúde Yanomami está abandonada. Falta tudo”, continua o líder indígena. Segundo ele, a aldeia Maimasi, que vive um surto de malária e onde várias crianças padecem com desnutrição e verminoses, não recebia visita de equipes de saúde havia seis meses, quando profissionais atenderam a criança da fotografia (divulgada por um missionário católico e publicada pela Folha de S. Paulo), no final de abril. A equipe não dispunha de medicamentos suficientes para todos os que precisavam, conta o indígena. A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), responsável pela atenção aos povos originários, dá uma versão diferente: diz que o atendimento ocorreu dia 19 de março, “mas a família não autorizou a remoção para uma unidade de saúde”.   Também garante ter estoque suficiente de medicamentos e ter contratado profissionais de saúde, mas não esclarece qual é a frequência das visitas à aldeia. A Sesai tampouco informa ao EL PAÍS sobre a incidência de malária, desnutrição e mortalidade infantil para dar a dimensão do crescimento das doenças na região.

     Esses problemas de saúde não são generalizados em todo o território Yanomami ―tão vasto quanto a área de um país como Portugal―, mas estão presentes em várias comunidades. Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz em duas áreas do território ―Auaris e Maturaká― e divulgado no ano passado dá pistas sobre o tamanho do problema: 80% das crianças de até 5 anos apresentavam desnutrição crônica e 50% desnutrição aguda nestes locais. A situação está relacionada desde à escassez de água potável até a falta de acompanhamento nutricional e de pré-natal na gestação. Passa ainda pelos quadros de verminoses, malária e diarreia frequentes nas comunidades, sem ações preventivas de saúde fortes. “Desde 2019, relato as necessidades e pedimos socorro ao Governo”, diz Júnior Yanomami. “Agora está pior. Aumentou muito a desnutrição. Onde tem garimpo forte tem o problema da fome. E na pandemia aumentaram as invasões. Como eu vou explicar a fome dos Yanomami? Eles [os garimpeiros] sujam os rios, destroem a floresta, acabam a caça. Nós nos alimentamos da natureza”, explica o indígena.

     Os moradores da Maimasi são descendentes de um dos grupos mais afetados pela abertura da estrada Perimetral Norte (BR-210) na década de 1970, durante a ditadura militar. Naquela época, parte significativa do grupo morreu diante de surtos de sarampo e outras doenças levadas pelos trabalhadores das obras. Há anos, eles cobram um posto de saúde, mas por enquanto seguem dependendo de visitas esporádicas da equipe de saúde à comunidade. A situação que já era difícil ficou pior especialmente a partir do ano passado. As visitas diminuíram enquanto cresceram as atividades de garimpeiros ilegais, aumentando a chance de doenças transmissíveis e a violência. E os casos de malária, enfrentados pelos indígenas há décadas e considerados “endêmicos” pela Sesai, seguem crescendo. Segundo Júnior Yanomami, só neste ano já foram identificados cerca de 10.000 casos, o que corresponde a pouco mais de um terço de toda a população yanomami, de cerca de 29.000 pessoas. “A criança na foto provavelmente expressa esse somatório de tragédias”, afirma uma nota da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana.

     Nosso território está vulnerável com tantos problemas ao mesmo tempo”.

     Os vários problemas sanitários, ambientais e sociais enfrentados não estão dissociados. O desmatamento na Amazônia no último mês de abril foi o maior em seis anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O desmatamento tem crescido ano após ano, e o desequilíbrio ambiental interfere na alimentação dos povos da floresta, que se alimentam do que colhem, pescam e caçam nas comunidades mais isoladas. Em várias áreas, a presença de garimpeiros e madeireiros ilegais leva ainda à contaminação de rios com mercúrio, contribuindo para desnutrição, desidratação e diarreia.  Com os recursos diminuindo na floresta e a fome à espreita, alguns indígenas acabam trabalhando com não indígenas e aderindo a uma alimentação industrializada e menos nutritiva. “Não dá para generalizar que as crianças estão morrendo desnutridas, com fome. Tem esse problema onde há presença dos garimpeiros. Onde não tem garimpo as crianças estão saudáveis, comendo bem e cuidando de suas atividades. O que falta é assistência de saúde”, defende Kopenawa. “A vida do povo Yanomami está em risco. Nosso território está vulnerável com tantos problemas ao mesmo tempo.”

     Crianças do povo Sanöma, que vive na Terra Indígena Yanomami, na fronteira do Brasil com a Venezuela.

     A escalada da violência com garimpos ilegais.

     Às crises sanitária e ambiental, soma-se ainda uma escalada de violência em algumas regiões. É o caso da comunidade indígena Palimiu, em Roraima. Há uma semana, a aldeia enfrenta ataques de garimpeiros, com tiros, bombas e gás lacrimogêneo contra os indígenas.  Na última terça, garimpeiros ilegais trocaram tiros com a Polícia Federal durante uma visita para averiguar as denúncias de ataques à aldeia. “Eu nunca tinha visto tantos tiros. Só em filme. Eles [garimpeiros] eram muitos e tinham armamento pesado”, conta Júnior Yanomami, que estava na comunidade naquele momento. No ano passado, os indígenas criaram uma barreira sanitária para evitar a passagem de garimpeiros e tentar frear a disseminação do coronavírus. Mas o rio Uraricoera, onde fica a barreira, é uma das principais rotas para a atividade. No dia 24 de abril, os Yanomami impediram a passagem de um grupo. Tentaram negociar para que não voltassem. A resposta, segundo Júnior Yanomami, veio meio hora depois, com tiros em direção à comunidade.     Os indígenas revidaram com flechas e tiros de espingarda.

     Os vários conflitos na última semana, segundo relatam os indígenas, deixaram três garimpeiros e um Yanomami feridos. Duas crianças teriam morrido afogadas enquanto fugiam dos tiros, segundo lideranças.  O último ataque, dizem, foi na noite de domingo. “É uma coisa muita séria. Todos lá estão com muito medo. Eu também fiquei”, emenda Júnior Yanomami. “Tem Yanomami correndo risco. Tenho medo de acontecer um massacre a qualquer momento. O Governo Federal tem que se mexer”, clama.

     Entidades indigenistas veem o posicionamento do presidente Bolsonaro, que já fez declarações contra a demarcação da terra indígena Yanomami e costuma defender a regularização do garimpo nos territórios, como um estímulo aos conflitos. Na última quarta-feira, o Exército até deslocou homens para a comunidade, mas os retirou horas depois. A 1ª Brigada em Boa Vista não respondeu à reportagem se reenviará os militares e o que motivou a retirada deles. A Polícia Federal, por sua vez, deve retornar para investigar o caso. Enquanto isso, os indígenas seguem em estado de alerta e medo, contam lideranças. Até que a situação se modifique, devem ficar também sem os serviços de saúde, já que a Sesai retirou os profissionais diante da gravidade da situação. “A unidade de atendimento será reaberta tão logo seja possível atuar em segurança”, afirma a secretaria, acrescentando que atendimentos de urgência serão realizados pontualmente no distrito sanitário indígena que fica fora do território. Já a Fundação Nacional do Índio não retornou os contatos da reportagem. “O clima é de medo. Muito medo. Agora só eles estão lá. Não tem PF, Exército nem Saúde. Estão sozinhos para defender a sua comunidade”, finaliza Júnior Yanomami.

 

     Comentário:

     Os índios brasileiros estão sendo massacrados pela fome, epidemias, contaminações, invasões, agressões, assassinatos, etc. Tudo isso, porque o governo de Jair Bolsonaro permite aos invasores das terras indígenas esse massacre que vai se tornar um genocídio étnico indígena.

     O maior facínora é aquele que extermina as etnias de maneira indireta através de terceiros ou priva esses povos de se alimentarem corretamente, é o caso dos garimpos, desmatamentos e incêndios criminosos, que o governo vem apoiando as invasões de grileiros, garimpeiros, devastadores de árvores através dos motosserras, tratores e correntes, e também, áreas para agropecuária em territórios do Amazonas e do Pantanal Mato Grosso, foram eles que privaram os índios de se alimentarem da caça e da pesca por ter envenenado as águas com metais pesados (mercúrio) e afastaram e mataram pelo desmatamento e incêndios os animais silvestres.

     Agora os índios estão a Deus dará, vivendo como párias, mendigos, favelados, aculturados. É muito triste ver essas nações indígenas em estado deplorável pela ambição e pelo poder do homem branco. Antigamente, esses índios eram fortes, sadios, viviam felizes porque tinha de tudo para viver e sobreviver através da natureza que lhes davam em abundância. Onde o homem branco chega destrói tudo, é um cupim querendo ser humanos mas na verdade não passam de monstros exterminadores da humanidade, do meio ambiente, e de si mesmo.

     Pobres povos indígenas que estão abandonados a própria sorte e o governo do faz de conta, faz que está protegendo mas está exterminando lentamente com a etnia indígena. Só Deus pode salvar os índios, e as florestas: Amazônica e a Atlântica e também o Pantanal; que estão sendo devastadas sem dó nem piedade.

     Cadê as autoridades internacionais que não ajudam e não criminalizam as autoridades pelo extermínio lento dos povos indígenas, estão todos de braços cruzados em cima do muro, mas vai chegar a vez da humanidade pagar pelas omissões e conivência com esses crimes de holocausto contra nações aborígenes.

     Com o avanço da destruição da floresta Amazônica em 2030 não haverá mais floresta e sim savanas amazonenses.

     A COP-26 e todos os seus membros são responsáveis pela destruição da floresta Amazônica e do Pantanal do Mato Grosso são todos coniventes com a política de extermínio da natureza de Jair Bolsonaro. Se esses membros da COP-26 quisessem acabar com a destruição da natureza aqui no Brasil, bastava fazer um boicote em todas as exportações (commodities) do Brasil, forçando o governo a reflorestar toda área que foi destruída pelo fogo e desmatamentos; e de imediato, acabar com os garimpos legais e ilegais, com as queimadas e cortes de árvores. Só depois de estabilizar o meio ambiente é que os países da COP-26 começariam a importar os produtos boicotados do Brasil. Por esta negligência das autoridades mundiais é que, no futuro próximo vão pagar caro pela displicência em suas ações neutras.

 

Ernani Serra

 

https://oglobo.globo.com/mundo/em-meio-cop26-desmatamento-na-amazonia-aumenta-5-bate-recorde-para-outubro-25274503

 

https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/01/bolsonaro-areas-indigenas-invasao-2020/

https://www.institutojurumi.org.br/2021/02/incendios-florestais-no-brasil.html

 

https://terrasindigenas.org.br/noticia/31836

 

Pensamento: O homem branco vive da miséria das nações indígenas.

 

Ernani Serra

 



DENÚNCIA DO ÍNDIO DÁRIO


     "São 20 mil garimpeiros explorando a nossa casa", afirma liderança indígena. Liderança yanomami denuncia o garimpo ilegal de ouro, ameaças e danos ambientais no território em Roraima: governo Bolsonaro pretende legalizar a mineração em terras indígenas. Dário Kopenawa é vice-presidente da associação Hutukara Yanomami.
     “Sempre denunciamos, mas garimpeiros continuam lá”, diz Dário Kopenawa, filho do líder yanomami David Kopenawa nesta entrevista à Agência Pública. “Ele [Bolsonaro] não está prejudicando só os Yanomami, ele está arrumando problema pro Estado brasileiro”, critica o jovem vice-presidente da associação Hutukara Yanomami, em Roraima.
     Atualmente, mais de 15 mil garimpeiros ilegais exploram ouro na maior terra indígena brasileira. O ouro se tornou em 2019 o segundo maior produto de exportação de Roraima sem que o Estado tenha uma única mina operando legalmente, segundo reportagem da BBC Brasil. Dário pede a retirada imediata dos garimpeiros ilegais: “mas como o governo Bolsonaro é a favor [da exploração] isso dificulta muito. E só o governo que pode fazer essa desintrusão”, avalia.
     Não é a primeira vez que há invasão garimpeira no território. Em 1986, 40 mil garimpeiros estiveram na TI. Reportagem do jornal O Globo revelou como essa nova corrida pelo ouro na região deixa um rastro de “tensões, violência, conflitos e destruição ambiental” — atualmente, são cerca de de 23 mil yanomamis vivendo em Roraima e no Amazonas. “Uma coisa que quero deixar bem clara é que as lideranças que estão denunciando estão correndo risco. Eles dizem: “se você continuar denunciando a gente vai pegar você, vai bater em você, vai matar você”, é assim que os garimpeiros estão falando para alguns amigos deles para deixar recado para quem está denunciando o garimpo”, revela.
     Dário conta que entregou ao Ministério Público Federal de Boa Vista um Plano de Gestão Territorial Ambiental (GTA). “São protocolos de consulta. Quando algum projeto ou empreendimento estiver querendo fazer mineração em terra indígena, por exemplo, no protocolo consta que antes tem que consultar os Yanomami. Quando tiver um interessado [em explorar a terra indígena] ele tem que enviar um projeto para Funai de Brasília, a Funai de Brasília vai consultar as regionais que vai consultar as organizações [indígenas], que fala com as lideranças locais que conversa com a comunidade”, explica.   “Esse tem que ser o procedimento do protocolo que a gente fez. Esses protocolos servem para reforçar a necessidade prática da proteção ambiental do nosso território e monitorar o desmatamento, o impacto ambiental, e destruição, enfim, mostra como cuidamos do nosso território”.
     Atualmente, o governo Bolsonaro prepara um projeto para legalizar a mineração em terra indígena, o que pode afetar um terço das TIs no país. Prevista na Constituição de 1988, a atividade nestes territórios nunca foi regulamentada e é alvo de discussão no Congresso.
     Dário afirma ainda que uma comissão das organizações e lideranças também foi até Brasília entregar o Plano de Gestão Territorial Ambiental. “Entregamos para nossa grande guerreira Joênia [Wapichana], Deputada Federal e depois entregamos no Ministério da Defesa e na Secretaria do Governo: Ibama, ICMBio, Ministério da Educação e a Funai. Também entregamos em Manaus, no Ministério Público Federal do Amazonas e na Comando Militar da Amazônia. Está todo mundo sabendo como se deve agir, quando se fala de garimpo ilegal em terra indígena Yanomami”.
     Seu pai, David Kopenawa, está denunciando o garimpo ilegal há muitos anos e você continua fazendo essas denúncias. Como você se sente?
     Quando eu era criança, meu pai já lutava muito. Na década de 1980, quando grande número de garimpeiros entrou na terra Yanomami, tinha 40 mil garimpeiros. Ele lutou bastante. Tinha muita coisa errada e denunciou muita gente. Nessa época, nosso território não era demarcado. Meu pai está com 40 anos de luta. Denunciando o garimpo. Falando das consequências, da vulnerabilidade do território Yanomami.
     Mas agora o governo brasileiro tem que cumprir o papel de retirar os garimpeiros.   Quando eles demarcaram a terra Yanomami em 1992, o governo federal tirou todos os garimpeiros da nossa terra. Agora a gente tem que ter uma ação pesada para retirar os garimpeiros imediatamente. Mas como o governo Bolsonaro é a favor [da exploração] isso dificulta muito. E só o governo que pode fazer essa desintrusão. Vai precisar de mais de 300 homens para tirar esses garimpeiros da terra Yanomami. Tem que ser uma operação muito grande. Tirar eles de lá é dever do Estado, em respeito aos direitos dos povos indígenas, está na Constituição de 1988, artigo 231, isso está claro e o presidente tem que cumprir o seu dever, que em minha opinião está descumprindo, porque 20 mil garimpeiros estão nas terras Yanomamis e não tem como esconder 20 mil pessoas.
     Você têm formalizado novas denúncias sobre a exploração de ouro no território?
Denúncias a gente sempre faz. Tem uma pilha, uma tonelada de denúncias. E a Funai não resolve isso, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal ou Exército. No mês passado, a gente fez denúncias graves nos órgãos públicos. Fomos na Funai, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa e Procuradoria Geral da República. Sempre denunciamos, mas garimpeiros continuam lá.
     Qual o teor das denúncias?
     Mais e mais denúncias de garimpo ilegal na terra Yanomami.
     Como está a exploração no território?
     Hoje tem uns 20 mil garimpeiros na terra Yanomami trabalhando lá. São muitos homens [garimpeiros] explorando a nossa casa. E isso não é a mineração, é o garimpo ilegal na terra Yanomami. Mineração não chegou ainda, mas já está prejudicando o nosso território. Onde está mais grave é na região do Rio Uraricoera, ali tem comunidades correndo risco.
     Como vocês tem certeza que são 20 mil garimpeiros? Como chegaram nesse número?
     A gente recebe informações através das denúncias das comunidades. Cada comunidade faz uma contagem “por cima”. A gente não chegou a ir lá [no garimpo] e contar garimpeiro por cabeça, não. Se a gente vai, a gente é morto. Também tem os dados da Polícia Federal e do Exército que chega nesse número. Desde 2011 vem aumentando. Mas 2019 está bastante. Estamos com 20 mil garimpeiros.
     Chegam ameaças até vocês?
     Onde tem a presença de garimpeiros, acontece muito. Eles ameaçam as mulheres, crianças e os adultos também. Eles têm arma de fogo. Tem ameaça, sim. Uma coisa que quero deixar bem clara é que as lideranças que estão denunciando estão correndo risco.   Eles dizem: “se você continuar denunciando a gente vai pegar você, vai bater em você, vai matar você”, é assim que os garimpeiros estão falando para alguns amigos deles para deixar recado para quem está denunciando o garimpo. Mas a gente tem que denunciar, porque o garimpo está dentro do nosso território, eles estão presentes dentro do território Yanomami. E a nossa terra está demarcada. Eles estão perto das comunidades. Tem alguns que estão a cinco quilômetros. O garimpo está ao redor das comunidades.
     Como são as estruturas do garimpo e o local onde os garimpeiros ficam?
     Eles têm os barracões que são as casas deles. Cada garimpo leva os seus equipamentos. Rede, alimentação, barco, maquinários, combustível, levam tudo. Quem está apoiando com equipamentos são os empresários, eles bancam tudo. Os motores e barcos são bancados por empresas.
     E como eles acessam a Terra Indígena?
     Eles têm três possibilidades: sobem de barco, fretam avião particular, ilegalmente, e helicóptero também, ilegalmente. Para poder chegar à localidade, eles têm pista clandestina. Tem radiofonia. Tem wi-fi, internet. Os garimpeiros estão equipados.
     Qual é a região mais problemática?
     Hoje, a parte de cima do Rio Uraricoera e também o Rio Mucajaí é a parte mais problemática. Os principais são esses. Eles estão subindo até os igarapés, onde os Yanomami estão morando. Lá eles têm pistas clandestinas. Eles mesmos fazem.
     Como é a vida das pessoas que vão até o garimpo e vivem lá para conseguir o ouro?
     Não é para eles viverem lá. Eles fazem atividade de garimpo ilegal, ficam cavando os rios com maquinário pesado. Colocam canos nos rios para puxar água. Cortam a terra, enchem os rios de poluição com mercúrio.    Tem uso de prostituição e alcoolismo.  Aliciamento dos Yanomami. Eles têm alimentação, rádio, televisão. Eles chegam na comunidade e prometem muito. Dão arroz, cachaça, comida, espingarda, cartucho. Falam para eles [indígenas] que são garimpeiros bons. A maioria dos Yanomami são contra, é a minoria que cai no aliciamento.
     Você sabe o que acontece com ouro que sai da terra Yanomami?
     O ouro extraído da nossa casa, eles levam para Boa Vista. Lá eles fazem uma espécie de lavagem e mandam para outros estados e depois para Europa. São vários empresários que compram ouro, mas a gente não conhece, não temos acesso. Há três ou quatros anos, aqui em Boa Vista a Polícia Federal investigou alguns empresários. Segundo ela, o caminho do ouro que sai da terra Yanomami vai para Boa Vista, depois para Manaus, Maranhão, e do Maranhão para São Paulo. O ouro Yanomami anda por esses caminhos.
     Uma das bandeiras do governo é liberar a mineração em terras indígenas. Essa postura do governo favorece o aumento de garimpeiros no território?
     Quando ele [Jair Bolsonaro] se candidatou ele disse logo que queria negociar com o governo americano a legalização de mineração nas terras indígenas. Ele já falou isso. Realmente, o interesse dele é explorar a mineração, não é garimpo. Garimpo é um pouco fraco e agora o interesse do governo Bolsonaro é onde tem os minérios. Mas também ele está criando muito problema pro Estado brasileiro. Ele não está respeitando as hierarquias. Ele não está prejudicando só os Yanomami, ele está arrumando problema pro Estado brasileiro.
     Uma característica do projeto de lei que visa permitir a exploração dos mineiros em terra indígena é a necessidade de prévia autorização por parte dos indígenas daquele território. Como os Yanomami enxergam isso?
     No contexto geral, os povos indígenas do Brasil são contra a mineração em terras indígenas. Porque a política indígena não é a favor da mineração. A minoria, alguns parentes, é envolvida com os políticos. São manipulados por políticos.
     A justiça determinou que a FUNAI abrisse as bases de proteção etnoambiental no território. Você tem acompanhado a reabertura?
     No planejamento de abertura, são três bases [no território]. A gente processou o Estado e conseguimos recursos para fazer a reativação das bases, onde os garimpeiros estão entrando. Temos que bloquear a entrada dos garimpeiros de barco. A Funai está se organizando para fazer a reinstalação.    Era pra ter feito no ano passado, mas não deu certo, porque — não sei se a FUNAI vai dizer bem isso, mas eu estou dizendo, nós conseguimos por meio da ação judicial as reativações das bases e gente permanente para ficar lá.
     Segundo a coordenadora regional da Funai de Roraima, eles estão subindo para reabrir as instalações. Essa é uma responsabilidade da FUNAI. Eles não passaram um prazo oficial, mas acho que em 90 dias vai reabrir. Eles estão montando a estrutura para ir pra até lá.
     Qual o seu papel na associação?
     Em 2004, os Yanomami começaram a atuação da [Associação] Hutukara e desde o início estou trabalhando com a associação.    Durante 15 anos venho lutando e denunciando garimpo no nosso território.   Também atuamos com saúde e educação do nosso povo. Hoje sou vice-presidente da associação Hutukara Yanomami e um porta-voz do povo.

Ernani Serra


Pensamento: Quem não luta pelo que é seu, perde o direito.

Ernani Serra


AS AUTORIDADES MUNDIAIS ESTÃO DORMINDO

 

     Garimpo leva violência sexual, aliciamento, crime organizado e doenças às terras Yanomami

     Maior reserva indígena do Brasil passa pelo pior momento de invasões dos últimos 30 anos, segundo relatório; 56% dos 27 mil habitantes da Terra Indígena Yanomami são afetados diretamente pelo garimpo.

     Em muitas comunidades, os garimpeiros estão aliciando meninas e jovens indígenas, oferecendo comida, bebida alcoólica e armas de fogo em troca de sexo e pequenos serviços.

     É cada vez mais comum o casamento de garimpeiros com meninas e adolescentes indígenas, algumas com apenas 10 anos de idade.

 

     Nos últimos três anos, o garimpo ilegal na reserva quase triplicou: a área total destruída pelo garimpo pulou de 1.200 hectares para 3.272 hectares.

     “Muitos garimpeiros estão aliciando jovens e mulheres Yanomami. Têm meninas de 11, 12, 13 anos sendo aliciadas para ficar na barraca com eles. Eles oferecem [em troca de sexo] alimentação, roupa, material de trabalho”.

     Comunidades dentro da Terra Indígena Yanomami situadas até 10 quilômetros de áreas invadidas pelo garimpo enfrentam violência sexual, estupro de menores, crime organizado, aliciamento de jovens indígenas para o garimpo, assassinatos e graves problemas de saúde, como malária e desnutrição infantil.

O alerta está em um levantamento publicado nesta segunda-feira (11), elaborado pela Hutukara Associação Yanomami, que estima que 273 comunidades Yanomami e 56% dos 27 mil habitantes da reserva são afetados diretamente pelo garimpo.

     “A Terra Indígena Yanomami vive o pior momento desde a sua demarcação, ocorrida em 1992”, diz o pesquisador responsável, que prefere não se identificar por causa de ameaças sofridas nos últimos meses.

     Apesar de o garimpo nas terras Yanomami acontecer há décadas, os pesquisadores afirmam que a atividade está mais violenta desde 2018, principalmente contra meninas e jovens indígenas, que têm sido aliciados em troca de comida, bebida alcoólica e armas de fogo.

     Apesar de as comunidades Yanomami mais impactadas serem, segundo os pesquisadores, Waikás, Homoxi, Kayanau e Xitei, todas situadas no lado roraimense da reserva, é nas regiões de Parima e Aracaçá que tem ocorrido os piores relatos de estupro e violência sexual.

     “No Parima, tem uma menina de onze anos que está casada com um garimpeiro. O pai dela morreu e ela estava sendo criada pela avó. O casamento aconteceu quando ela tinha dez anos”, denuncia o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Junior Hekura Yanomami.

     Não é um caso isolado. “Muitos garimpeiros estão casados com adolescentes indígenas”, diz Hekura. Segundo ele, existem de dez a doze “filhos de garimpeiros principalmente na região de Parima. E ainda tem mais meninas grávidas.”

     Escravidão por dívida e trabalho por comida.

     Segundo os pesquisadores, pessoas da região são atraídas para trabalhar nos garimpos em diversas funções, de mergulhador, operador de máquina a cozinheira e prostituta — inclusive por meio das redes sociais e aplicativos de mensagem.

     “A expectativa de ganhar cerca de 3 gramas de ouro por programa (o que equivale a mais de R$ 900) ou mesmo um salário de R$ 5 mil por mês como cozinheira atrai muitas mulheres que não sabem exatamente o que irão encontrar na floresta”, diz trecho do relatório.

     Uma vez que o próprio trabalhador interessado é responsável pelo custo da viagem até as regiões do garimpo — transporte que pode custar mais de R$ 10 mil —, a situação costuma resultar, segundo o relatório, a uma situação de escravidão por dívida.

     “Há relatos de cozinheiras que são obrigadas a se prostituir e garotas de programa que não conseguem sequer bancar a viagem de volta, devido aos gastos nas estruturas das corrutelas, como medicamentos para infecções, aluguel do quarto, alimentação e produtos de higiene”, diz outro trecho do documento.

     Grande parte das mulheres aliciadas é venezuelana, que atravessaram a fronteira em razão da crise humanitária no país vizinho.

     Aliciamento de indígenas.

     Por outro lado, também há casos em que os próprios Yanomami são aliciados pelo garimpo.

     “Os garimpeiros dizem: ‘Essa moça aqui. Essa tua filha que está aqui, é muito bonita!’. Os Yanomami respondem: ‘É minha filha!’. Quando falam assim, os garimpeiros apalpam as moças. Somente depois de apalpar é que dão um pouco de comida”, diz outro relato de indígena presente no relatório.

     “Eles falam assim para os Yanomami: “Se você tiver uma filha e a der para mim, eu vou fazer aterrizar uma grande quantidade de comida que você irá comer! Você se alimentará!”, relata outro.

     Ambos os relatos foram coletados na região de  Kayanau, na confluência dos rios Couto de Magalhães e Mucajaí. Outros relatos na área descrevem que é prática comum dos garimpeiros deixarem comida algumas vezes para mulheres da comunidade com o objetivo de ganhar a confiança delas. Assim que elas perdem o medo de se aproximar, os garimpeiros cometem o abuso sexual.

     “Recebemos relatos no final de 2020, na comunidade Aracaçá, de que 20 a 30 garimpeiros raptaram uma adolescente e a violentaram. Ela morreu. Ainda em 2020, outra adolescente foi sequestrada por garimpeiros em Surucuru e outra em Parima”, confirma Hekura Yanomami.

     “Tem meninas de 11, 12, 13 anos sendo aliciadas para ficar na barraca com eles. Eles oferecem [em troca de sexo] alimentação, roupa, material de trabalho. É questão de vulnerabilidade”, conta.

     A situação é extrema em Aracaçá, localizada na calha do Rio Uraricoera, comunidade já quase totalmente destruída pelo garimpo. Lá, os indígenas dependem da alimentação oferecida pelos garimpeiros em troca de serviços, como carregar combustível e realizar pequenos fretes de canoa.

     “De acordo com os Palimiu Theli, os garimpeiros introduziram bebidas e um ‘pó branco’ que deixaram os Sanöma viciados, alterados e violentos, resultando em muitos episódios de violência entre os de Aracaçá”, diz trecho do relatório em referência a dois grupos que fazem parte do povo Yanomami.

     Hekura narra outro caso recente ocorrido em uma comunidade na região Surucucu, em Parima.

     “Os garimpeiros chegaram lá em dezembro. Eles ofereceram 50 armas de fogo para poder trabalhar — melhor, destruir as terras da comunidade. Alguns jovens aceitaram. Outras comunidades estão revoltadas, responsabilizaram esses jovens por sujarem o rio. Tivemos que ir até lá agora em março para evitar conflitos entre os próprios Yanomami”, diz a liderança.

     Hekura acredita que a situação na região do Surucucu deverá piorar. “Agora, há relatos de garimpeiros oferecendo cem espingardas para continuarem destruindo a região”, conta.

     Mineração na área triplicou em três anos.

     O garimpo dentro da Terra Indígena Yanomami, localizada entre os estados de Roraima e Amazonas, vem ganhando força desde 2016. Nos últimos três anos, contudo, o relatório aponta que a atividade ilegal na reserva quase triplicou: em outubro de 2018, a área total destruída pelo garimpo representava pouco mais de 1.200 hectares; em dezembro de 2021 a destruição pulou para 3.272 hectares.

     O relatório mostra que o garimpo identificável por satélites localiza-se na porção roraimense da TI Yanomami, sendo que quase a metade da área degradada (45%) está concentrada em Waikás, região localizada no Rio Uraricoera. Kayanau, que está na confluência dos rios Couto Magalhães e Mucajaí, é a segunda zona com a maior concentração de cicatrizes, com pouco mais de 20% do total da área degradada, seguida por Homoxi, na fronteira com a Venezuela, com 12%.

     A região da comunidade Xitei, localizada nas nascentes do Rio Parima, em Alto Alegre, norte de Roraima, contudo, começa a preocupar pela explosão do garimpo no último ano, com crescimento do garimpo em 2021 de 1.000%.

     Dentre as macrorregiões, a calha do Rio Uraricoera é a mais impactada pelo garimpo na TI Yanomami atualmente, concentrando 45% das minas. Apresenta os maiores acampamentos e as mais complexas estruturas de apoio ao garimpo. Os garimpeiros acessam a região por meio de portos localizados fora da reserva, na vizinhança da Estação Ecológica de Maracá. Segundo os pesquisadores, a área está sem Base de Proteção Etnoambiental, o que facilita as invasões.

     “São portos localizados ou dentro de propriedades privadas, ou em áreas públicas sem destinação, que passam a ser controlados pelo garimpo”, diz o pesquisador responsável pelo relatório.

     “Em janeiro de 2022, apesar de ser tipicamente um mês de poucas chuvas em Roraima, o Uraricoera ainda estava cheio, e o tráfego de embarcações era intenso.    Durante o sobrevoo, foi possível registrar diversos botes repletos de recipientes de combustível, gás de cozinha, alimentação e equipamentos, percorrendo o rio em ambas direções”, relata trecho do documento.

     Além do transporte fluvial, há, também, a opção do frete aéreo. A viagem em uma das “pernas” custa cerca de R$ 11 mil, com direito a 500 kg de carga.

     Comentário: O Amazonas foi invadido pela corrida ao ouro sujo. As comunidades e as tribos indígenas estão em perigo de extinção por causa dessa atividade de garimpo (legal ou ilegal) o crime é o mesmo. Enquanto está havendo o genocídio lento das tribos indígenas e dos ribeirinhos, as autoridades mundiais estão cegos, mudos e surdos.

 

Ernani Serra

 

 

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Pensamento: Sem florestas, sem índios e sem humanidade.

 

Ernani Serra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               




A FUTURA BANDEIRA DO BRASIL


     Davi Kopenawa: “Os garimpeiros, sem dúvida, vão matar os índios isolados na área Yanomani”
Líder Yanomani denuncia na ONU desmonte de políticas públicas do Governo Bolsonaro, invasão de seu território pelos garimpeiros e a situação crítica dos grupos isolados.

     Davi Kopenawa Yanomami no encontro de Lideranças Yanomami e Ye'kuana, realizado entre 20 e 23 de novembro de 2019 na Comunidade Watoriki, na Terra Indígena Yanomami. VICTOR MORIYAMA / ISA
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     “Meu povo tem o direito de viver em paz e em boa saúde, porque ele vive em sua própria casa.  
     Na floresta estamos em casa! Os Brancos não podem destruir nossa casa, senão, tudo isso não vai terminar bem para o mundo”. Este foi o alerta do líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, que participou nesta terça-feira de uma audiência na Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, onde deu seu testemunho sobre a invasão do território Yanomami pelos garimpeiros e a ameaça que isto representa aos grupos isolados Moxihatetea.
     A sessão, promovida pelo Instituto Socioambiental (ISA), pela Comissão Arns e pelo Conectas, denuncia a frágil situação dos povos indígenas em isolamento no Brasil, e riscos de etnocídio e genocídio destas populações. Um relatório do ISA, apresentado na audiência mostra que, em 2019, a derrubada da floresta nessas terras cresceu 113% no Brasil, sendo que na somatória de todas as Terras Indígenas (TIs), o aumento foi de 80%. Seis terras indígenas ―Ituna/Itatá, Kayapó, Munduruku, Uru-Eu-Wau-Wau, Yanomami e Zoró―, que possuem dez registros de povos indígenas isolados, estão listadas entre as treze TIs que respondem por 90% do desmatamento nesses territórios”, aponta o relatório.
    
     desmonte das políticas públicas do Governo Jair Bolsonaro, como os “cortes de orçamento, perseguição a servidores, deslegitimação dos dados de desmatamento” estão entre as razões apontadas pelo relatório para o estímulo a invasões.
     Davi Kopenawa Yanomami, durante audiência da ONU em genebra, nesta terça-feira.    DIVULGAÇÃO/ISA

     Leia a íntegra do testemunho de Davi Kopenawa:
     As coisas estão assim. Agora os Brancos não vivem longe de nós. Eles não param de se aproximar. Na cidade de Boa Vista, eles se tornaram muito numerosos, vão aumentar sem trégua, e agora eles se exortam uns aos outros. Eles dizem: “Sim, vamos nos apoderar dos bens preciosos da terra dos Yanomami. Esses bens ainda não são mercadorias de verdade, mas são bens preciosos, escondidos no cascalho da terra. Nós vamos tomar essas riquezas, e ainda as árvores da floresta e vamos nos instalar nos Yanomami!”. É o que os Brancos dizem uns aos outros e é como eles se encorajam: ”Venham para Boa Vista! Eu, Governo de Roraima, vou lhes dar trabalho! Vocês não serão mais pobres!”. Estas são as palavras deles. Com elas querem trocar seu dinheiro e suas mercadorias. Assim os Brancos, todos eles, não param de fixar seu olhar sobre a nossa floresta para tentar se apoderar dela. Eles dizem: “Sim, nós vamos arrancar dinheiro da floresta. Os Yanomami não sabem de nada, portanto são nossas as riquezas”. É isso o que os Brancos falam ao encorajar seus trabalhadores a virem para a floresta. “Sim, podem ir! Não tenham medo! Os Yanomami parecem numerosos, mas nós é que somos, de verdade! Mesmo que eles flechem alguns de nós, ainda assim seremos ainda muito numerosos!”
     Dizendo dessas coisas todas é que eles aumentaram tanto e por toda a parte, na floresta, nos rios, nas terras altas. Eles querem o ouro.       valor do ouro aumentou cada vez mais e eles aumentam sem cessar. Eles pensaram: “Sim, agora o valor do ouro está muito alto. Vamos todos para a terra Yanomami!”. É assim que eles adentraram a floresta por todos os lados, através dos rios, pelas trilhas, com seus aviões e helicópteros. É assim que as coisas estão hoje em dia. Eles abriram portas de entrada pelos rios e pelo ar. Eles desmataram para fazer pistas de aterrissagem por toda a parte. Também desmataram para fazer novas trilhas na floresta. Na bacia do Rio Apiaú, é por aí que eles chegam em grande número. Pelo rio Parimiú também. Eles já foram expulsos de lá, mas voltaram ainda mais numerosos! Há também uma outra trilha, que sobe ao longo do Rio Catrimani.
     Pela trilha do Rio Apiaú, eles se aproximaram do lugar onde vive o grupo isolado Moxihatetea. Nas nascentes do Rio Apiaú, onde vivem esses povos isolados, começaram a atacar e a destruir a floresta e seus rios. No início, eles trabalhavam com as mãos, mas agora usam máquinas. Descem as peças dessas máquinas de um helicóptero para, depois, montá-las ali mesmo. É assim. Os Moxihatetea estão vigilantes e desejam ficar longe dos Brancos. Eles não conhecem garimpeiros e não querem que se aproximem. Então já fugiram muitas vezes. Mas agora, não podem mais fugir.        Antes eles se refugiavam na floresta profunda, longe das trilhas, e lá ficavam em acampamentos provisórios, como quando estavam em expedições de caça, longe de casa. Os garimpeiros então começaram a roubar a comida dos roçados – a mandioca, as bananas, as canas de açúcar, quando as suas provisões de arroz, farinha e latas de conservas se esgotaram. Então os guerreiros Moxihatetea os atacaram com flechas, mas os garimpeiros mais violentos quiseram se vingar atirando com espingardas. É o que aconteceu com os Moxihatetea isolados, e eu acho isso muito errado.
     Então eles fugiram de novo subindo o rio, mas nessa direção também há garimpeiros instalados no Rio Catrimani, criando obstáculo. Os índios agora estão cercados. Por isso estou falando para defender os Moxihatetea. Mas eu não conheço as suas casas, assim como vocês também não conhecem. Eu só as vi do céu, do avião. Nunca os visitei a pé. Nunca nos falamos. É por isso que estou muito preocupado. Talvez em breve estarão exterminados. É o que eu acho. Os garimpeiros sem dúvida vão matá-los com suas espingardas e suas doenças, a sua malária, a sua pneumonia... Os indígenas não têm vacinas de proteção, vão todos desaparecer.
     E não há só eles na terra-floresta Yanomami.   Mais além, na região de Erico, vivem outros povos isolados. São como os Moxihatetea. E também, na outra margem do Rio Catrimani, a jusante, nas cabeceiras do Rio Xeriuini, há outros isolados. E ainda num afluente do Rio Arca, no centro. É por isso que lutamos por eles. Estamos muito inquietos pelo que possa lhes acontecer. Há outros isolados na floresta próxima dos Waimiri-Atroari e há outros em toda a Amazônia! Viviam assim há muito tempo e querem continuar assim! São eles que cuidam verdadeiramente da floresta. São os Moxihatetea e todos os povos isolados da Amazônia que ainda guardam a última floresta.    Mas os Brancos não sabem disso, porque eles não compreendem a língua desses povos. Os brancos apenas pensam: “O que eles estão fazendo aqui?”     E quando os Brancos chegam, são suas epidemias que chegam também com eles.
     É por isso que eu reflito: “O que acham os Grandes Homens [autoridades] dos brancos? Não querem nos deixar viver em paz e em boa saúde?   Eles nos detestam, de verdade?”. É evidente que nos consideram como inimigos, porque somos outras gentes, somos habitantes da floresta. Fomos criados na floresta da Amazônia, no Brasil, e por isso os Brancos não nos conhecem. Eles se contentam em atacar e destruir à vontade nossa floresta. Não é a terra deles mas eles declararam que lhe pertence. Eles pensam: “Essa floresta é nossa. Vamos arrancar o ouro do solo, cortar as suas árvores e vamos instalar aqui outros brancos que necessitam de terra, os criadores de gado, os colonos, e vamos então acabar com os Yanomami”. Não é só o que eles pensam, agora é até o que eles dizem mesmo!
     O novo presidente do Brasil, eu nem menciono o seu nome, nem digo para ele: “Como você é o presidente, você deveria nos proteger!”. Eu já conheço as palavras desse presidente: “Que venham todos os Brancos que queiram dinheiro, os criadores de gado, os madeireiros, os garimpeiros e os colonos também. Eu vou dar-lhes essa floresta, para acabar com todos os Yanomami, todos eles, e para que os Brancos se tornem os proprietários. É nossa terra e tudo bem! Assim é, eu sou o único senhor dessa terra!”. Essas são as suas palavras. Essas são as palavras daquele que se faz de grande homem no Brasil e se diz Presidente da República. É o que ele verdadeiramente diz: “Eu sou o dono dessa floresta, desses rios, desse subsolo, dos minérios, do ouro e das pedras preciosas! Tudo isso me pertence, então, vão lá buscar tudo e trazer para a cidade. Faremos tudo virar mercadoria!”.
     É o que os Brancos acham e é com essas palavras que destroem a floresta, desde sempre.   Mas, hoje, eles estão acabando com o pouco que resta. Eles já destruíram os nossas trilhas, sujaram os nossos rios, envenenaram os peixes, queimaram as árvores e os animais que caçamos. Eles nos matam também com as suas epidemias.    Alguns Brancos têm pena de nós, mas não os seus Grandes Homens, que dizem que nós somos animais. Eles dizem: “São macacos, porcos do mato!”. No entanto, são esses homens que não sabem pensar. Eles não sabem trabalhar na floresta, não conhecem seu poder de fertilidade në rope. Só ficam andando de um lado para o outro, destruindo. Eles só querem conhecer a floresta do alto de suas máquinas satélites, que saem das cidades e que olham de relance as árvores, as nossas casas, os rios, as colinas, a beleza da floresta. Depois disso eles chamam os outros: “Sim, venham pra cá. Nós todos do Brasil vamos tirar os bens preciosos! Nós vamos acumular tudo isso nas cidades! Nós vamos, de verdade, virar o Povo da Mercadoria! Não seremos mais pobres, vamos ter muitos bens!”. É o que eles dizem entre eles. Era isso que eu queria contar aqui. Essa gente é indiferente às palavras daqueles que defendem os Yanomami. Mesmo assim, envio essa mensagem.
     Gostaria que os Direitos Humanos da ONU pudessem olhar para nós e nos dar um apoio muito forte para que as autoridades do Brasil ―os políticos dos municípios, dos estados e da capital ―todos esses Brancos das cidades, nos respeitem e não nos molestem mais. Que eles compreendam e reconheçam os direitos dos seres humanos, assim como faz a ONU. Os Direitos Humanos da ONU são construídos para defender os que sofrem.   Então, eu gostaria que a ONU faça um bom trabalho, denunciando com muita força o que nos acontece, para que as autoridades do Brasil respeitem os Yanomami, os povos isolados e todos os povos ainda não reconhecidos.
     Meu povo tem o direito de viver em paz e em boa saúde, porque ele vive em sua própria casa. Na floresta estamos em casa! Os Brancos não podem destruir nossa casa, senão, tudo isso não vai terminar bem para o mundo. Cuidamos da floresta para todos, não só para os Yanomami e os povos isolados. Trabalhamos com os nossos xamãs, que conhecem bem essas coisas, que possuem uma sabedoria que tem contato com a terra. A ONU precisa falar com as autoridades do Brasil para retirar ―imediatamente― os garimpeiros que cercam os isolados e todos os outros em nossa floresta.

     Comentário:

     O governo de Jair Bolsonaro vai destruir os povos indígenas, a fauna e a flora da floresta do Amazonas, e todos os brasileiros e o mundo vão pagar por essa insanidade de ambição e poder desse presidente da República Federativa do Brasil que deseja entregar todas as riquezas do Brasil aos EUA e aos poderosos do poder econômico internacional.
     No passado, os EUA cometeu essa mesma insanidade contra os índios norte-americanos e conseguiram exterminar ou deixar alguns povos indígenas na miséria social.
     Aqui é diferente, aqui temos uma floresta fechada com árvores centenárias e que, vão cortar sem pena nem dó, um patrimônio nacional, para receber migalhas dos madeireiros que vão enriquecer com a destruição da floresta amazônica. É preciso que alguém tenha o poder de deter essa máquina de destruição ambiental que se chama Bolsonaro.  

Ernani Serra

Pensamento: A destruição do meio ambiente só trás um ambiente deserto.

Ernani Serra


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